quinta-feira, 12 de abril de 2018

Análise da música "Oversoul", da banda Andre Matos (solo)

Oversoul é uma música da banda de Heavy Metal "Andre Matos", composta pelo próprio vocalista e tecladista Andre Matos, Bruno Ladislau (baixista) e Hugo Mariutti (guitarrista), presente no álbum The Turn Of The Lights, de 2012. 

A letra traz uma visão crítica da nossa realidade, sobre o capitalismo, o consumismo e a alienação. Pode-se dizer que a música não chega a ser “pesada”, mas é rápida, assim como o ritmo da vida moderna — e não, como pensa a maioria, que a música é rápida ou pesada somente por a banda ser de Heavy Metal, pois conteúdo e melodia estão intrinsecamente ligados —, possuindo, em certo momento, uma “quebra” de ritmo, mas que depois volta para sua velocidade de início. Analisemos a tradução:

Superalma

As mandíbulas das corporações
Estão se espalhando para todos os lados
Invadindo como uma praga, você não pode ignorar
Você é levado para uma armadilha
Eles parecem nem se importar
Com sua vida, sua saúde — sua miséria!

Eles precisam que você diga
Eles precisam que você jogue
Eles vão achar um jeito para suas necessidades
Você é examinado de cima a baixo
Pois eles querem saber:
Você é simples o bastante para nos servir?

Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...

O florescer de uma vida
Você é inocente e selvagem
Você acha que sabe a verdade, mas simplesmente não sabe
É assim mesmo, quando se começa
Você tem que se juntar ao jogo!
Você está procurando por respeito — para ser alguém!

Eles forçam você a jogar
Eles forçam você a desejar
A partir de agora, eles estarão por trás de suas necessidades
Você fará o que eles dizem
Não consegue escolher seu próprio caminho
Exatamente quando é tarde demais para voltar atrás.

Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...

Olhe ao redor e veja
Você perdeu toda a vontade de viver?
Por que você não levanta e luta por sua alma?

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Análise do conteúdo

Começa-se, então, com um eu-lírico alertando sobre o crescimento das corporações/empresas/grupos/instituições que, como se sabe, regem influência direta em nossas vidas. Interessante é que ele compara as corporações às pragas, pois elas alastram-se, destruindo os ambientes — no caso, nossa terra, nossa natureza, nosso planeta, nosso lar — e as vidas; ainda assim, é certo que pragas são prejudiciais, mas podem ser combatidas (o que mostra a esperança do eu – lírico).

Em seguida, diz que somos levados para uma armadilha e que elas/eles, corporações/empresas/governantes, parecem não se importar com as nossas vidas, com a nossa saúde e miséria, o que é verdade, pois todas essas instituições estão preocupadas somente com os lucros (deles, e não os nossos; para eles, quando pensamos e agimos diferente da maioria, nós somos a praga a ser combatida).

Na segunda estrofe, o eu-lírico mostra o quanto estamos ligados às corporações, e estas, a nós; diz que precisam de nossa opinião, necessitam conhecer nossas necessidades e vontades, para que, assim, continuemos no jogo (deles).

Não é muito raro vermos empresas, sites etc. perguntando ou pedindo a nossa opinião sobre tal produto, modificação ou ação; sempre usando a "segunda pessoa do singular", “tu/você”, para dar a impressão de que realmente se importam e de que nós quem mandamos, criando um ar de “construção”, quando, na realidade, é manipulação. Termina-se a estrofe dizendo que somos examinados de cima a baixo e que as corporações realmente estão preocupadas conosco: querem saber se iremos servi-las ou não.

Então, chega o refrão da música, no qual é dito que todas as vezes que “eles” atingem seus objetivos, somos esfaqueados sem saber. Claro, nossa pobreza ou nosso prejuízo é o lucro e a riqueza dos donos de empresas; ou ainda, como vemos atualmente, no Brasil, os políticos comemorando suas vitórias, com seus projetos pessoais, irracionais e empresariais, que fazem bem somente a eles, mas não ao povo — e que, se não pesquisarmos, nem ficamos sabendo. O refrão termina com uma pergunta: “Você não consegue sentir a Superalma? / O significado de tudo isso...”; notemos o uso da letra maiúscula em “Superalma”, algo que dá um significado maior à palavra.

Em inglês, a palavra “over” já deixa a expressão com mais ênfase, portanto, “oversoul” seria uma “superalma”, mas Andre Matos ainda a deixa com letra maiúscula. Quando se usa uma palavra desta forma, trata-se de algo supremo, algo universal, a representação perfeita daquilo que se propõe — característica da Literatura Clássica. Pode-se interpretar essa “Superalma” como a situação da vida, a situação como um todo, com seus lados bons e ruins, externos e internos.

Na próxima estrofe, o eu–lírico fala sobre o florescer da vida, sobre o despertar;  diz que somos inocentes e selvagens, achamos que conhecemos a verdade (sem saber). Aqui, mostra-se a experiência do eu–lírico, que, por ser mais velho, sabe que quando estamos despertando, achamo-nos inteligentes, mas temos tanto a aprender... Ou, talvez, esteja falando dos alienados; vemos tantas pessoas se considerando cultas, menosprezando todos os outros que não concordam com suas ideias, chamando-os de alienados e dominados por uma ideologia, quando, na verdade, nem percebem que eles também estão sob outra ideologia, mas não percebem — ou não querem saber.

Para terminar a estrofe, diz que a vida é assim mesmo, temos de nos juntar ao jogo, procurar por respeito, procurar ser alguém. Isso é ensinado e realmente torna-se o desejo de muitos. Essa é a ideologia passada, mas poucos se perguntam: o que é ser alguém? Ter respeito pelo o quê? Muitos confundem “respeito” com “medo”, outros querem ser respeitados pelo o que têm, e não pelo o que são. Todos devem buscar ser alguém, sendo assim, ser alguém é ser igual, e quem não pensa assim é diferente, é perigoso, é louco, é praga. O jogo deve ser jogado, não pode ser modificado, não pode ser (re)construído ou debatido.

Como objetos, somos forçados a jogar e levados a desejar, assim, não precisamos somente das necessidades, mas de quem as produza (e as induza) também. Fazemos o que mandam fazer, não escolhemos nosso próprio caminho, tornamo-nos alienados. Tornamo-nos objetos ao invés de sujeitos. Depois disso, repete-se o refrão e inicia-se o solo.

Neste momento, quando o refrão acaba, a música tem um corte repentino, tocando somente o piano. A música fica silenciosa, triste, como se fosse um momento para a reflexão. Aos poucos, os instrumentos voltam à velocidade inicial e o eu–lírico faz suas últimas questões ao leitor/ouvinte: “Olhe ao redor e veja / Você perdeu toda a vontade de viver? / Por que você não levanta e luta por sua alma?”, incitando-nos a sermos nós mesmos, buscarmos e lutarmos para sermos o que somos, e não o que querem que sejamos.

Além disso, ao sugerir a luta pela alma, que é algo abstrato, deixamos, pelo menos nesse momento, de lutar por coisas materiais. Repete-se o refrão e termina-se a música, novamente, com quebra de ritmo, triste, assim como a situação da vida no mundo atual, ou como pode  acabar se continuarmos assim. 

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Andre Matos é um dos maiores representantes do Heavy Metal brasileiro, reconhecido como um dos maiores vocalistas do mundo. Já esteve à frente das bandas Viper, Angra, Shaman, Virgo e Symfonia, além de ter participado de vários projetos. Está em carreira solo desde 2006, onde lançou três álbuns até então, sendo The Turn of The Lights o último. 
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Texto postado originalmente no blog Palavras Aleatórias, no dia 01/07/2015, por Carlos Siqueira.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

50 anos de Sebastian Bach






No dia 03/04/1968, nascia Sebastian Philip Bierk, ou simplesmente Sebastian Bach. O rapaz que ficou famoso no mundo do Rock usando o mesmo sobrenome do músico barroco, Mas aqui falaremos do “treteiro” vocalista que ficou conhecido por ser o frontman de uma das maiores bandas de Hard Rock dos anos 80: Skid Row.

Apesar de ter nascido nas Bahamas, Bach cresceu em Peterborough Ontário (Canadá). Criado em meio a 7 irmãos, 2 deles também ganharam uma certa notoriedade: ZacBierk (ex jogador de hóquei) e Dylan Bierk (atriz). Além disso, seu pai, David Bierk, era pintor e foi autor das capas dos discos Slave To The Grind (Skid Row) e Angel Down (carreira solo). Esta última, Sebastian inclusive a tatuou em seu corpo. 

A carreira musical de Sebastian Bach começou aos 16 anos, passando por duas bandas antes da fama: Kid Wikkid e Madam X. Bach foi convidado para entrar no SkidRow em 1986, quando foi visto por Dave “The Snake” Sabo, cantando no casamento do produtor musical Mark Weiss

Após se juntar a Rachel Bolan, Rob Affuso e Scot Hill, a carreira daquele garoto nascido nas Bahamas começou a decolar com base em sucessos e... Brigas. Uma delas, logo no final dos anos 80, com ninguém mais ninguém menos que Jon Bon Jovi. Este, como amigo de infância de Dave Sabo, arrumou um contrato com a Atlantic Records para o Skid Row, porém, brigas por royalties e direitos autorais fizeram Sebastian e Jon quase saírem na mão.

Apesar de conflitos com personalidades notáveis do Hard Rock (como MotleyCrue e Michael Sweet, do Stryper) e também com fãs (exemplo do vídeo abaixo), o SkidRow, no final dos anos 80 e começo dos anos 90, virou uma máquina de hits. Apenas dois álbuns nesse meio tempo foram suficientes para colocar músicas como I Remember You, Youth Gone Wild, In A Darkened Room, Monkey Business, Slave to the Grind, Wasted Time etc. nas paradas.

 https://www.youtube.com/watch?v=Y8Z9Yb7QHiM

 O terceiro disco (Subhuman Race, lançado em 95) não embalou como os dois anteriores. E depois de conflitos com a banda e alguns shows desastrosos, Sebastian Bach foi demitido do SkidRow. Seus companheiros de banda alegaram que ele era “estrelinha” demais. Outro motivo da saída foi Bach não ter concordado com uma nova sonoridade que Rachel Bolan queria impor no som de um futuro disco.

Após ter saído do SkidRow, Sebastian Bach continuou se aventurando como cantor (lançando 3 discos solo) e também como ator. Fez parte do elenco de Jesus Christ Superstar na turnê americana, atuando como Jesus Cristo, porém, um ano depois, foi demitido, novamente, por excesso de estrelismo. Coincidência, não? Além disso, também atuou na série Gilmore Girls, interpretando Gil.

Sebastian lançou o primeiro disco solo em 2007, chamado Angel Down, que é considerado por muitos como o melhor trabalho depois da saída do Skid Row. O sucesso do disco foi tanto que Bach foi chamado pelo Slash para assumir os vocais do Velvet Revolver, em 2008 após a saída de Scott Weiland. Bach, como grande amigo de Axl Rose (ambos inclusive gravaram um cover de Back In The Saddle, do Aerosmith), recusou o convite por achar que poderia “trair” seu melhor amigo em uma época em que Axl e Slash ainda estavam brigados. Depois disso, outros dois trabalhos solo foram lançados: Kicking & Screaming de 2011 e Give ‘em Hell de 2014.

Essa é a carreira resumida de uma personalidade forte do mundo do Hard/Heavy. Mais de 30 anos de estrada, onde houve polêmicas, conflitos, mas, acima de tudo, muita música boa que nos marcou. Agora, Bach, você nos dar de presente uma reunião do Skid Row, no seu aniversário, seria pedir demais? Bem, só sugestão mesmo.

Vida longa ao Sebastian Bach!

WE ARE THE YOUTH GONE WILD!