quinta-feira, 12 de abril de 2018

Análise da música "Oversoul", da banda Andre Matos (solo)

Oversoul é uma música da banda de Heavy Metal "Andre Matos", composta pelo próprio vocalista e tecladista Andre Matos, Bruno Ladislau (baixista) e Hugo Mariutti (guitarrista), presente no álbum The Turn Of The Lights, de 2012. 

A letra traz uma visão crítica da nossa realidade, sobre o capitalismo, o consumismo e a alienação. Pode-se dizer que a música não chega a ser “pesada”, mas é rápida, assim como o ritmo da vida moderna — e não, como pensa a maioria, que a música é rápida ou pesada somente por a banda ser de Heavy Metal, pois conteúdo e melodia estão intrinsecamente ligados —, possuindo, em certo momento, uma “quebra” de ritmo, mas que depois volta para sua velocidade de início. Analisemos a tradução:

Superalma

As mandíbulas das corporações
Estão se espalhando para todos os lados
Invadindo como uma praga, você não pode ignorar
Você é levado para uma armadilha
Eles parecem nem se importar
Com sua vida, sua saúde — sua miséria!

Eles precisam que você diga
Eles precisam que você jogue
Eles vão achar um jeito para suas necessidades
Você é examinado de cima a baixo
Pois eles querem saber:
Você é simples o bastante para nos servir?

Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...

O florescer de uma vida
Você é inocente e selvagem
Você acha que sabe a verdade, mas simplesmente não sabe
É assim mesmo, quando se começa
Você tem que se juntar ao jogo!
Você está procurando por respeito — para ser alguém!

Eles forçam você a jogar
Eles forçam você a desejar
A partir de agora, eles estarão por trás de suas necessidades
Você fará o que eles dizem
Não consegue escolher seu próprio caminho
Exatamente quando é tarde demais para voltar atrás.

Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...

Olhe ao redor e veja
Você perdeu toda a vontade de viver?
Por que você não levanta e luta por sua alma?

//


Análise do conteúdo

Começa-se, então, com um eu-lírico alertando sobre o crescimento das corporações/empresas/grupos/instituições que, como se sabe, regem influência direta em nossas vidas. Interessante é que ele compara as corporações às pragas, pois elas alastram-se, destruindo os ambientes — no caso, nossa terra, nossa natureza, nosso planeta, nosso lar — e as vidas; ainda assim, é certo que pragas são prejudiciais, mas podem ser combatidas (o que mostra a esperança do eu – lírico).

Em seguida, diz que somos levados para uma armadilha e que elas/eles, corporações/empresas/governantes, parecem não se importar com as nossas vidas, com a nossa saúde e miséria, o que é verdade, pois todas essas instituições estão preocupadas somente com os lucros (deles, e não os nossos; para eles, quando pensamos e agimos diferente da maioria, nós somos a praga a ser combatida).

Na segunda estrofe, o eu-lírico mostra o quanto estamos ligados às corporações, e estas, a nós; diz que precisam de nossa opinião, necessitam conhecer nossas necessidades e vontades, para que, assim, continuemos no jogo (deles).

Não é muito raro vermos empresas, sites etc. perguntando ou pedindo a nossa opinião sobre tal produto, modificação ou ação; sempre usando a "segunda pessoa do singular", “tu/você”, para dar a impressão de que realmente se importam e de que nós quem mandamos, criando um ar de “construção”, quando, na realidade, é manipulação. Termina-se a estrofe dizendo que somos examinados de cima a baixo e que as corporações realmente estão preocupadas conosco: querem saber se iremos servi-las ou não.

Então, chega o refrão da música, no qual é dito que todas as vezes que “eles” atingem seus objetivos, somos esfaqueados sem saber. Claro, nossa pobreza ou nosso prejuízo é o lucro e a riqueza dos donos de empresas; ou ainda, como vemos atualmente, no Brasil, os políticos comemorando suas vitórias, com seus projetos pessoais, irracionais e empresariais, que fazem bem somente a eles, mas não ao povo — e que, se não pesquisarmos, nem ficamos sabendo. O refrão termina com uma pergunta: “Você não consegue sentir a Superalma? / O significado de tudo isso...”; notemos o uso da letra maiúscula em “Superalma”, algo que dá um significado maior à palavra.

Em inglês, a palavra “over” já deixa a expressão com mais ênfase, portanto, “oversoul” seria uma “superalma”, mas Andre Matos ainda a deixa com letra maiúscula. Quando se usa uma palavra desta forma, trata-se de algo supremo, algo universal, a representação perfeita daquilo que se propõe — característica da Literatura Clássica. Pode-se interpretar essa “Superalma” como a situação da vida, a situação como um todo, com seus lados bons e ruins, externos e internos.

Na próxima estrofe, o eu–lírico fala sobre o florescer da vida, sobre o despertar;  diz que somos inocentes e selvagens, achamos que conhecemos a verdade (sem saber). Aqui, mostra-se a experiência do eu–lírico, que, por ser mais velho, sabe que quando estamos despertando, achamo-nos inteligentes, mas temos tanto a aprender... Ou, talvez, esteja falando dos alienados; vemos tantas pessoas se considerando cultas, menosprezando todos os outros que não concordam com suas ideias, chamando-os de alienados e dominados por uma ideologia, quando, na verdade, nem percebem que eles também estão sob outra ideologia, mas não percebem — ou não querem saber.

Para terminar a estrofe, diz que a vida é assim mesmo, temos de nos juntar ao jogo, procurar por respeito, procurar ser alguém. Isso é ensinado e realmente torna-se o desejo de muitos. Essa é a ideologia passada, mas poucos se perguntam: o que é ser alguém? Ter respeito pelo o quê? Muitos confundem “respeito” com “medo”, outros querem ser respeitados pelo o que têm, e não pelo o que são. Todos devem buscar ser alguém, sendo assim, ser alguém é ser igual, e quem não pensa assim é diferente, é perigoso, é louco, é praga. O jogo deve ser jogado, não pode ser modificado, não pode ser (re)construído ou debatido.

Como objetos, somos forçados a jogar e levados a desejar, assim, não precisamos somente das necessidades, mas de quem as produza (e as induza) também. Fazemos o que mandam fazer, não escolhemos nosso próprio caminho, tornamo-nos alienados. Tornamo-nos objetos ao invés de sujeitos. Depois disso, repete-se o refrão e inicia-se o solo.

Neste momento, quando o refrão acaba, a música tem um corte repentino, tocando somente o piano. A música fica silenciosa, triste, como se fosse um momento para a reflexão. Aos poucos, os instrumentos voltam à velocidade inicial e o eu–lírico faz suas últimas questões ao leitor/ouvinte: “Olhe ao redor e veja / Você perdeu toda a vontade de viver? / Por que você não levanta e luta por sua alma?”, incitando-nos a sermos nós mesmos, buscarmos e lutarmos para sermos o que somos, e não o que querem que sejamos.

Além disso, ao sugerir a luta pela alma, que é algo abstrato, deixamos, pelo menos nesse momento, de lutar por coisas materiais. Repete-se o refrão e termina-se a música, novamente, com quebra de ritmo, triste, assim como a situação da vida no mundo atual, ou como pode  acabar se continuarmos assim. 

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Andre Matos é um dos maiores representantes do Heavy Metal brasileiro, reconhecido como um dos maiores vocalistas do mundo. Já esteve à frente das bandas Viper, Angra, Shaman, Virgo e Symfonia, além de ter participado de vários projetos. Está em carreira solo desde 2006, onde lançou três álbuns até então, sendo The Turn of The Lights o último. 
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Texto postado originalmente no blog Palavras Aleatórias, no dia 01/07/2015, por Carlos Siqueira.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

50 anos de Sebastian Bach






No dia 03/04/1968, nascia Sebastian Philip Bierk, ou simplesmente Sebastian Bach. O rapaz que ficou famoso no mundo do Rock usando o mesmo sobrenome do músico barroco, Mas aqui falaremos do “treteiro” vocalista que ficou conhecido por ser o frontman de uma das maiores bandas de Hard Rock dos anos 80: Skid Row.

Apesar de ter nascido nas Bahamas, Bach cresceu em Peterborough Ontário (Canadá). Criado em meio a 7 irmãos, 2 deles também ganharam uma certa notoriedade: ZacBierk (ex jogador de hóquei) e Dylan Bierk (atriz). Além disso, seu pai, David Bierk, era pintor e foi autor das capas dos discos Slave To The Grind (Skid Row) e Angel Down (carreira solo). Esta última, Sebastian inclusive a tatuou em seu corpo. 

A carreira musical de Sebastian Bach começou aos 16 anos, passando por duas bandas antes da fama: Kid Wikkid e Madam X. Bach foi convidado para entrar no SkidRow em 1986, quando foi visto por Dave “The Snake” Sabo, cantando no casamento do produtor musical Mark Weiss

Após se juntar a Rachel Bolan, Rob Affuso e Scot Hill, a carreira daquele garoto nascido nas Bahamas começou a decolar com base em sucessos e... Brigas. Uma delas, logo no final dos anos 80, com ninguém mais ninguém menos que Jon Bon Jovi. Este, como amigo de infância de Dave Sabo, arrumou um contrato com a Atlantic Records para o Skid Row, porém, brigas por royalties e direitos autorais fizeram Sebastian e Jon quase saírem na mão.

Apesar de conflitos com personalidades notáveis do Hard Rock (como MotleyCrue e Michael Sweet, do Stryper) e também com fãs (exemplo do vídeo abaixo), o SkidRow, no final dos anos 80 e começo dos anos 90, virou uma máquina de hits. Apenas dois álbuns nesse meio tempo foram suficientes para colocar músicas como I Remember You, Youth Gone Wild, In A Darkened Room, Monkey Business, Slave to the Grind, Wasted Time etc. nas paradas.

 https://www.youtube.com/watch?v=Y8Z9Yb7QHiM

 O terceiro disco (Subhuman Race, lançado em 95) não embalou como os dois anteriores. E depois de conflitos com a banda e alguns shows desastrosos, Sebastian Bach foi demitido do SkidRow. Seus companheiros de banda alegaram que ele era “estrelinha” demais. Outro motivo da saída foi Bach não ter concordado com uma nova sonoridade que Rachel Bolan queria impor no som de um futuro disco.

Após ter saído do SkidRow, Sebastian Bach continuou se aventurando como cantor (lançando 3 discos solo) e também como ator. Fez parte do elenco de Jesus Christ Superstar na turnê americana, atuando como Jesus Cristo, porém, um ano depois, foi demitido, novamente, por excesso de estrelismo. Coincidência, não? Além disso, também atuou na série Gilmore Girls, interpretando Gil.

Sebastian lançou o primeiro disco solo em 2007, chamado Angel Down, que é considerado por muitos como o melhor trabalho depois da saída do Skid Row. O sucesso do disco foi tanto que Bach foi chamado pelo Slash para assumir os vocais do Velvet Revolver, em 2008 após a saída de Scott Weiland. Bach, como grande amigo de Axl Rose (ambos inclusive gravaram um cover de Back In The Saddle, do Aerosmith), recusou o convite por achar que poderia “trair” seu melhor amigo em uma época em que Axl e Slash ainda estavam brigados. Depois disso, outros dois trabalhos solo foram lançados: Kicking & Screaming de 2011 e Give ‘em Hell de 2014.

Essa é a carreira resumida de uma personalidade forte do mundo do Hard/Heavy. Mais de 30 anos de estrada, onde houve polêmicas, conflitos, mas, acima de tudo, muita música boa que nos marcou. Agora, Bach, você nos dar de presente uma reunião do Skid Row, no seu aniversário, seria pedir demais? Bem, só sugestão mesmo.

Vida longa ao Sebastian Bach!

WE ARE THE YOUTH GONE WILD!



segunda-feira, 26 de março de 2018

70 anos de Steven Tyler




Nem parece, mas, sim, essa é a idade do carinha dos lencinhos no pedestal que apresenta um vigor de um moleque de 20 anos nos palcos. Steven Victor Tallarico, ou simplesmente Steven Tyler, completa, hoje (dia 26/03/18), 70 anos de idade. Como estamos falando de uma figura icônica da música, com uma identidade e uma voz inconfundível, com milhares de fãs espalhados pelo mundo inteiro, decidimos prestar uma homenagem ao nosso querido Demon of Screaming.

Nascido em 1948, em Yonkers (Nova Iorque), o destino de Steven Tyler não poderia ser outro a não ser a música. Isso tudo porque o pai dele, Victor Tallarico, era um grande pianista. Tyler passava horas e horas, ao lado de seu pai, vendo-o tocar, e ficou encantado com aquilo. Porém, na adolescência, Tyler optou por virar baterista, onde, antes da fama, era dono das baquetas da banda The Strangeurs, que logo mudaria o nome para Chain Reaction. Foi aí que despertou em Tyler o interesse de se tornar vocalista, e logo passou a cantar na banda, além de comandar as baquetas.

Steven à esquerda junto com a Chain Reaction

Steven e sua banda fizeram certa fama pela região, onde chegaram a abrir shows do Yardbirds e a gravar alguns singles. Em 1969.  quando Steven Tyler, junto com a Chain Reaction, foram tocar em uma lanchonete,em Nova Hampshire, uma banda chamada The Jam Band se apresentou antes dele. Steven ficou surpreso com duas coisas: uma, que o guitarrista dessa banda conhecia e era fã da Chain Reaction, graças aos singles que foram gravados. Seu nome, era Joe Perry. Outro fator que chamou a atenção do Steven Tyler foi a qualidade da banda ao vivo (que também tinha um baixista chamado Tom Hamilton). Tyler logo pensou: “Acho que vou fazer uma banda com esses caras”. A partir desse momento, a vida daqueles rapazes mudaria para sempre.

Tyler se mudou para Boston, junto com Perry e Hamilton, em 1970, para poder formar uma nova banda. Tyler abandonaria a bateria de vez e focaria apenas nos vocais. Na bateria, entraria um Nova-iorquino chamado Joey Kramer. Para completar o time, um guitarrista chamado Ray Tabano foi chamado, porém, logo depois, foi substituído por Brad Whitford. Ali estava formado o Aerosmith, banda que faria Tyler ficar conhecido pelos quatro cantos do mundo.

A voz de Steven Tyler se tornou uma identidade primordial para o som do Aerosmith, além das suas performances no palco,onde, ainda hoje, consegue mostrar o mesmo vigor (este que vos fala está de prova, por ter presenciado o Aerosmith nas duas últimas visitas ao Brasil).

Além disso, nos anos 70, o Aerosmith virou uma máquina de hits, gravando Dream On, Mama Kin, Sweet Emotion, Walk This Way, Last Child etc. Apesar de conflitos com Joe Perry (sua cara metade do Aerosmith), que culminaram na saída dele e de Whitford da banda, Steven conseguiu se reerguer com o Aerosmith nos anos 80 e 90, gravando hits gigantescos (Crazy, Cryin’, Amazing, Love In An Elevator, Dude (Looks Like A Lady, Rag Doll etc.), após o retorno dos dois guitarristas originais à banda.

Tyler e Perry em ação

Porém, como tudo na vida não são flores, Tyler teve seus momentos complicados. Na adolescência, Tyler bebia uma dose de uísque antes de ir pra escola, devido não ser bem aceito pelos colegas de classe e, consequentemente, sofrer bullying. Mas Tyler ficou conhecido também pelo vício excessivo em drogas. Nessa etapa, Tyler e Perry ficaram conhecidos como Toxic Twins (Gêmeos Tóxicos, em português) por injetarem vários tipos de drogas, a ponto de terem a criatividade bloqueada para composição, algo que refletiu nos discos.

Após a saída de Perry da banda, Tyler usou e abusou mais ainda das drogas, a ponto de ter uma síncope em 1982, no meio de um show da turnê do disco Rock In A Hard Place. Desde aquele momento, Tyler decidiu se cuidar. Tanto que Tyler soltou uma de suas famosas frases: “Sexo, Drogas e Rock N’ Roll. Esqueça as drogas e você terá tempo para os dois”.

A família de Steven Tyler também tem uma pessoa muito famosa. Estamos falando de, nada mais, nada menos, que sua filha Liv Tyler. Atriz mundialmente famosa que atuou em filmes como O incrível Hulk, Senhor Dos Anéis e Armageddon. Filme este que a música principal do filme se tornou o maior hit do Aerosmith: I Don’tWanna Miss A Thing.

Liv Tyler


Além de ser essa grande figura nos palcos, Steven Tyler também dá show longe dos holofotes. Isso porque, em 2017, Tyler fundou e inaugurou a Janie’s House, em Atlanta, uma casa onde acolhe vítimas de abuso sexual. Essa ação veio de inspiração do clássico “Janie’s Got A Gun”. Esse lado engajado e humilde de Steven Tyler também é conhecido por diversas pessoas.  Quando está em turnê com o Aerosmith e decide sair para poder viver um dia de turista nas cidades onde toca, ao contrário de andar com seguranças e “miguelar” um autógrafo, Tyler passeia normalmente, atendendo aos fãs que encontra pelas cidades, além de também “dar uma palhinha” com músicos de rua. Diferente de outras celebridades egocêntricas, Tyler sabe também que, acima de tudo, é ser humano. E que ser humano!

Logo da Janie's Fund

Essa foi uma breve história e análise da vida e carreira de um frontman único e exclusivo no mundo da música, um vocalista fantástico e, acima de tudo, uma grande personalidade, dentro e fora dos palcos. Como fã declarado de Aerosmith desde os 6 anos de idade, não pude deixar o aniversário desse lendário vocalista passar em branco.

VIDA LONGA AO STEVEN TYLER!
VIDA LONGA AO AEROSMITH!


sábado, 24 de março de 2018

Análise da música "Bullets on the altar", da banda Almah

"Bullets On The Altar" é uma música da banda brasileira Almah. Composta por Edu Falaschi, é uma homenagem para as doze crianças assassinadas por Wellington Menezes, na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo - RJ, 2011 .

A letra é direta, com algumas questões e afirmações sobre crenças e visões religiosas. Enquanto a música inicia-se como balada (música lenta), em alguns pontos (por causa do conteúdo da letra) torna-se mais "agressiva", para mostrar a indignação do eu- lírico. Agora, vamos à letra traduzida :

Balas no Altar

Nós somos realmente amados?
O que é crença e o que é crime?
Celestial? Fora da mente de alguém?

Pessoas amam, estimam
E acariciam quem elas crucificaram
Como vítimas fingimos chorar.

Tragédia, fim dos dias?
Ou é apenas a cegueira de um homem ?
Lealdade ou fanatismo?
Sem esperança, isso faz sentir-me muito solitário.

Homicídio
Crime
Um tiroteio
Agonia
Você repousa suas balas no altar.

E você morre
E você mata
Morto por dentro
Você revela
Sua aberração sob sua fé.

Tomando sonhos, tomando vidas
Tirando anjos dos braços da inocência
Prioridade, casa da dor!
Está descendo pregos na chuva fria.

Mas eu sinto o fim da tempestade
E o libertar das doze almas presas
Quando vemos as cruzes queimando para aliviar.

Contamos com o desconhecido para deixar nossa culpa de lado
Piedade não irá apagar suas mentiras
Encare a evidência de que Deus é algo para aliviar
O céu é a liberdade e o inferno é aqui.

Tomando sonhos, tomando vidas
Tirando anjos dos braços da inocência
Prioridade, casa da dor!
Está descendo pregos na chuva fria.

Mas eu sinto o fim da tempestade
E o libertar das doze almas presas
Quando vemos as cruzes queimando para aliviar.

Agora eu vejo o fim da tempestade
E vislumbro as doze almas ensinadas
Elas estão livres em algum lugar descansando nas memórias.


 //



Análise do conteúdo

Começa-se, então, com o eu-lírico fazendo várias questões sobre o que as religiões (pelo menos a maioria) pregam. Somos realmente amados por Deus? Até que ponto  as atitudes por uma crença podem chegar? O que difere um assassinato (crime) por uma questão política, de um assassinato em nome de Deus, religião ou crença? Mesmo com tais atitudes, nós ainda somos seres celestiais, criados pela "mente" de alguém (que é celestial também)?

Depois disso, o eu-lírico começa a descrever as más atitudes humanas (relacionando com a história de Jesus Cristo), mostrando como somos falsos. Diz que crucificamos as pessoas e, depois do feito, acariciamo-las; dizemos que amamos, estimamos e fingimos chorar. Tudo falsidade.

Na terceira estrofe há o questionamento entre o que as pessoas geralmente pensam ou dizem e o que realmente pode ser. Até que ponto a lealdade passa a se tornar fanatismo? Envolvido em tantas questões, o eu–lírico diz sentir a solidão e “puxa” a ponte anterior ao refrão da música. 

Neste ponto, a canção fica mais “agressiva” e relembra o que aconteceu em 2011, em uma escola de Realengo, Rio de Janeiro. O crime, os tiros, a agonia, tudo. Na frase “você repousa suas balas sobre o altar” pode-se pensar na possível ligação que tinha o assassino Wellington Menezes com a religião islâmica.

Na próxima estrofe é dito que, o assassino, ao matar, já mostra que está morto por dentro e coloca para fora o verdadeiro “eu”, no caso, uma aberração que existia por baixo de uma fé.

Assim, ele tirou sonhos, tirou vidas e tirou os anjos (que são as crianças, seres puros) dos braços da inocência — não só as que ele matou, mas as outras que presenciaram a cena e a agonia também, pois é quase impossível alguém esquecer algum acontecimento deste nível depois de ter sobrevivido. Pode-se contar não só com a “inocência” citada, mas com os inocentes também, a saber, os pais e parentes das crianças.

Em meio a tantas coisas ruins, o eu -lírico mostra possuir esperanças (contradizendo-se, pois no décimo verso ele diz não a possuir) e sentir o fim disso tudo, que é quando as doze almas (o número de crianças mortas por Wellington) presas neste mundo se libertam: vemos as cruzes queimarem, ou seja, o assassino pagar pelo o que fez. Mas é dito que as cruzes queimam para aliviar, então, mesmo Wellington pagando pelo o que fez, perdendo a vida, isso não curará a dor dos entes das crianças, apenas a aliviará. Termina-se o refrão.

A partir de agora, a letra começa a mostrar as convicções do eu- lírico, que se mostra ser alguém cético perante os ideais religiosos. Ele diz que não aceitamos a nossa culpa e clamamos por algo desconhecido (Deus) para nos aliviar; ou ainda, como fazem alguns, colocar a razão dos fatos como planos do Divino. E termina por dizer que o céu é a liberdade e o inferno é aqui, afirmando, então, que vivemos no inferno e que é impossível sermos livres nesta vida.

Por fim, repete-se o refrão, mas com mais uma estrofe. Nela, é visto o eu- lírico que não apenas sente, mas que agora vê o fim da tempestade, observando as doze almas, agora, sim, ensinadas a serem livres: livres em algum lugar, mas presas, descansando nas memórias dos que ficaram. 

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Há algumas contradições na letra, no dizer/pensar do eu- lírico, mas isso é normal do ser humano. Somos contraditórios por natureza, pois estamos sempre mudando — algo que condiz totalmente com o ideal do álbum que se encontra a música analisada.

"Bullets On The Altar" faz parte do álbum Motion ("Movimento”, em português), assim que abrimos o encarte do álbum, vemos uma frase em inglês, do filósofo grego Heráclito de Éfeso: "You cannot step twice into the same river, for fresh water are ever flowing on to you", algo como: "Você não consegue pisar no mesmo rio duas vezes, pois águas novas estão sempre fluindo sobre você".

Heráclito nos diz que tudo passa; as águas, quando passam pelo homem que se banha, não são as mesmas, e o homem também não é o mesmo; a tristeza que sentimos, uma hora, irá embora, o mesmo acontece com as alegrias. Assim é a vida.

Embora a letra seja baseada no massacre de Realengo, ela aborda questões muito válidas sobre as religiões e crenças em todo o mundo. Vemos na História muitos casos em que as religiões mataram muitas pessoas e continuam matando até hoje; crimes são cometidos em nomes de crenças e de deuses, em nome da "verdade". Devemos refletir, mudar nossa forma de pensar e agir; escolhermos a vida ao invés da morte.
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Texto postado originalmente no blog Palavras Aleatórias, no dia 12/02/2015, por Carlos Siqueira.

sexta-feira, 23 de março de 2018

OMNI – O conceito de “tudo” foi levado ao pé da letra




OMNI – O conceito de “tudo” foi levado ao pé da letra

Quando o Rafael Bittencourt veio até a página oficial do Angra no facebook para anunciar o nome do novo disco do Angra e o seu significado, a expectativa criada pelos fãs era de ouvir a banda passeando pela discografia em seus quase 30 anos de estrada e 8 álbuns lançados até o OMNI. A questão é que o que está no novo trabalho do Angra é muito mais do que isso. OMNI mostra uma banda muito mais sólida, original e renovada, se comparada ao anterior Secret Garden (que ainda assim é um baita disco).
Realmente, o que ouvimos no OMNI é simplesmente o Angra de sempre. Uma banda que experimenta e abusa de novos elementos, que em certos momentos impõe algo diferente (como o caso do Rafael Bittencourt estar mais presente nos vocais), mas sem perder a essência, que é aquela linha speed/power ou progressiva (como o Felipe Andreolli já disse em uma entrevista), misturando-a com elementos da música brasileira, que fez o som da banda ser algo único.
Em OMNI, ouviremos tudo o que realmente esperamos em um disco do Angra (principalmente se for considerar a fase atual do grupo):músicas rápidas, elementos da música brasileira, experimentalismo, baladas, Rafael Bittencourt mais presente nos vocais (embora agora o Fabio Lione esteja bem mais confortável no posto de vocalista) etc. Também é importante ressaltar a participação do Marcelo Barbosa, guitarrista que entrou para substituir Kiko Loureiro (não sabemos se em definitivo ou não), que está tão habituado com essa sonoridade, que dispensa comparações ao nosso eterno guitarhero brasileiro. Sem mais, vamos ao disco.
Light of Transcendence, graças a uma rádio japonesa, conhecemos essa música antes de todo o restante do disco (exceto da Travelers of Time, que foi o primeiro single do álbum). Agora, você, fã de Angra, pare e pense: caso ainda não estivéssemos na era da internet, quando a gente precisava comprar o CD para poder ouvi-lo e conhecê-lo melhor, e logo de cara você já ouvisse essa música, o que você pensaria? “Cara, isso é Angra!”. 
Ao ouvir Light of Transcendence, rapidamente você já a associa com as outras músicas da banda que iniciam os discos, como, por exemplo, Carry On, Spread Your Fire, Arising Thunder e, principalmente, Nova Era. É um excelente cartão de visita para quem vai começar a ouvir o álbum. Música empolgante, refrão forte e fácil de decorar, duetos de guitarras, solo rápido... Enfim: ANGRA!
Travelers of Time, a segunda do novo trabalho, divulgada pela própria banda, começa com aquelas batidas de ritmos brasileiros (que viraram uma marca registrada do Angra), que lembram muito o Holy Land. É uma canção poderosa, possui um ótimo refrão, Fabio Lione chega rasgando com seus vocais, etc. Entretanto, uma coisa que não me cativou muito foi o fato de haver muita variação para pouco tempo de música, pois, realmente, ela começa de um jeito e passa por várias fases até chegar a parte em que o Rafael Bittencourt dá uma palhinha com sua voz. Não é uma música ruim, mas parece que, de tantos elementos e mudanças, a banda se perde (ou nós nos perdemos) um pouco.
Black Widow’s Web – Você já imaginou algum fã de Metal cantando uma música na voz da Sandy? Pois saiba que só o Angra poderia te proporcionar algo assim ao convidá-la para cantar no disco. E, sinceramente, a participação dela foi tão boa, que achamos que o que ela cantou no álbum foi pouco. Muito pouco mesmo. Porém, no fundo, foi o suficiente para se encaixar no contexto da tal Viúva Negra.
 Para contemplar a música, há a participação da Alissa White-Gluz, do Arch Enemy, preenchendo-a com seus guturais. Embora essa técnica não me agrade muito, elase encaixou perfeitamente no revezamento vocal com Fabio Lione durante todo o trabalho, parecendo até mesmo uma conversa entre o bem e o mal (na verdade, é isso mesmo). Quanto ao instrumental, dispensam-se comentários. Agora, considerando uma das maiores bandas do Metal do Brasil, juntamente com o vocalista do Rhapsody of Fire, uma voz gutural da vocalista do ArchEnemy e ninguém mais ninguém menos do que a Sandy, em uma música só, você imaginaria que isso aconteceria um dia?
Insania, a canção que já começa com um coro à lá Acid Rain, gritando o título fortemente, com certeza, empolga logo de cara. Além disso, o nome repete-se constantemente no refrão, o que o faz grudarem nossa cabeça e passarmos o dia inteiro cantando-o. Podem ter certeza de que essa estará no setlist quando a turnê do disco começar, além de acabar virando single posteriormente. Não é uma música rápida, mas, com certeza, mostra todo o seu poder. Até já virou uma das favoritas dos fãs.
The bottom of my soul, momento no qual Rafael Bittencourt assume os vocais inteiramente no álbum, algo que já está virando rotina no Angra. Confesso que não identifiquei o instrumento de cordas que é tocado no começo da música, mas, com certeza, deve ter sido uma idéia experimental, algo bastante usado no seu projeto solo (Bittencourt’s Project). Aliás, só pelo fato de o Rafael cantá-la no disco, nota-se uma aproximação do Angra com seu projeto solo. No mais, é uma balada que ganha força no decorrer da música, principalmente por aliar uma melodia a uma letra que gruda na cabeça facilmente, além de um belo solo de guitarra.
Pelo fato do Angra se renovar a cada disco, especialmente por outro integrante da banda (que não seja o vocalista principal) cantar, só podemos dizer uma coisa: que continue assim, pois está muito bom.
War Horns: música pesadíssima, que frisa bem a pegada do que a banda sabe fazer (e dá para ser menos Angra?). Confesso que, em certos momentos, ela me lembrou a PerfectSymmetry, do Secret Garden. War Horns é o segundo single do álbum e já está se tornando uma das queridinhas dos fãs, não só pelo fato da música em si, que é uma pedrada sonora, ou pelo refrão ser muito empolgante, ou o arranjo etc., mas porque aqui temos ele colaborando novamente com o Angra: Kiko Loureiro, o nosso guitarhero que fez fama no Angra, ajudou a banda a ser consagrada e hoje está no Megadeth. Nesse registro, Kiko colabora com um solo fantástico, bem típico de sua identidade guitarrística. Mal esperamos para ver essa música ao vivo. Com certeza, se tivesse sido feita antes, poderia se encaixar em qualquer disco da banda, ou seja, com certeza no futuro chamaremos essa música de clássico.
Caveman, canção que traz novamente aqueles elementos da música brasileira. O que mais chama a atenção são os versos cantados em português (“Olha o macaco na árvore/O outro naquele galho / Onde que eu não tô vendo?/Embaixo daquela flor”, etc). Novamente, remetendo-se ao conceito do disco (o “tudo”), a banda volta às suas raízes, que fizeram o som do Angra ser inigualável. Com certeza, eu não fui o único que pensou: “Isso tem cara de Holy Land”. Realmente, uma das mais legais do disco.
Magic Mirror – Se depender do Felipe Andreolli, essa música será presença certa no repertório da banda. Aliás, ela representa bem o tipo de som que o Angra fez nos últimos álbuns: mais progressiva, com passagens cantadas pelo Rafael Bittencourt, refrão fácil de lembrar, um arranjo musical mais complexo, trechos mais pesados (principalmente no solo de guitarra), variações tonais no meio da música, sons de piano para quebra de ritmo etc. Como músico de conservatório que é o Felipe Andreolli, está explicado porque ele gostou tanto da Magic Mirror. Bem, eu também.
Always More – Podem me apedrejar, mas, sim, essa foi a que mais gostei do disco. É uma belíssima balada, uma das mais bonitas que o Angra já fez na carreira. Simples, direta e empolgante. Uma música gostosa de ouvir em qualquer momento. Sinceramente, peço humildemente que a banda a lance comercialmente, pois tenho certeza que será um sucesso tão grandioso como foi Wishing Well em 2004. Uma linda canção que será lembrada com bastante carinho pelos fãs no futuro, com certeza.
OMNI – Silence Inside – Será que só eu me lembrei da Shadow Hunter com o começo da música, por causado violão cigano? Bem, se for para lembrar dela, fica só no início mesmo. A canção ganha bastante peso logo depois, e temos, de novo, a presença de Rafael Bittencourt cantando no álbum, porém, revezando mais com o Fabio Lione.
Silence Inside traz arranjos complexos, remetendo-se mais ao progressivo. Talvez, pelo fato de ter o nome do disco nessa faixa, voltamos novamente ao conceito de tudo, pois, ao escutá-la, tive a impressão que ela dá uma leve passeada por todos os trabalhos que a banda fez na carreira, mas que termina ganhando uma cara nova, principalmente pelo solo do Marcelo Barbosa, no meio da música, que lembra um pouco o John Petrucci, do Dream Theater. Mais uma canção com a cara do Angra, para fechar bem a parte presencial da banda tocando no álbum.
OMNI – Infinite Nothing – O disco encerra-se com uma composição totalmente orquestrada e instrumental. A idéia da música é a mesma da Gate XIII, do Temple of Shadows, que passeia por todas as canções do álbum, reproduzindo as partes mais “clichês” nos arranjos orquestrados, para encerrar o trabalho. Agora, fica a pergunta: o Angra vai usá-la para abrir ou encerrar os shows?
Em suma, fica nítido saber que o Angra quis mostrar TUDO no disco. Mostrou toda a carreira da banda no OMNI, oscilando entre o passado, o presente e também o futuro (por que não?). Sem dúvidas, o melhor álbum com o Fabio Lione nos vocais até o momento, além de o Marcelo Barbosa ter dado um excelente cartão de visitas. Ver o Bruno Valverde mais acomodado ao Angra, o Felipe Andreolli ditando mais o ritmo da banda, e a mente pensante de Rafael Bittencourt por trás de todo o conceito do disco, faz o OMNI realmente ser TUDO: TUDO de bom, TUDO o que representa o Angra. E, não, manter a mesma pegada ou se remeter aos discos antigos da banda não é saudosismo nem falta de criatividade. É se mostrar sólido. E isso tudo é Angra.